Naquele rincão onde o tempo parece cochilar à sombra das mangueiras e os causos ganham asas ao cair da tarde, ecoou mais um capítulo do já famoso Treta Gospel, anunciado em tom de arauto: “Extra, extra!”, já iam dizendo, “qualquer semelhança com a realidade é mera saliência da minha parte" Era sábado de aleluia, dia em que, segundo os antigos, o mundo dos vivos e dos que já partiram se roçam como véus ao vento. Mas naquele ano,não houve Judas pendurado. Em seu lugar, surgiu ela: a lendária Jurupari da Coaracy. Dizem que, enquanto as almas seguiam seu cortejo silencioso rumo à Igreja de São Benedito, em busca de preces e redenção, a tal criatura resolveu antecipar a própria liturgia. Apareceu primeiro, audaciosa, quase solene, quase profana, subindo sem cerimônia sobre um caixão ainda cercado de murmúrios. E não veio de qualquer jeito, não. Veio com sua sandália enfeitada de paticholi ainda da época que nem o Zé Bonitinho existia, reluzente como se tivesse atravessado ...
Crônica de um Reino Antigo: A Jurupari da Luanda Para vós, amantes das eternas tretas gospel, é chegada a hora de registrar nos anais deste reino uma história que, até hoje, provoca gargalhadas entre os cascas de bala da não tão nova geração na ilharga da mulher Xafariz. Pela honra e glória da respeitável família alenquerense, apresento-vos uma figura que já percorreu mais becos e comentários do que muito trovador de feira: a célebre Jurupari da Luanda. Era, dizem os cronistas populares, uma peste cheia de lari-lari. No seu próprio imaginário, mantinha estreita amizade com o alto clero da Coaracy Nunes, como se fosse frequentadora assídua dos corredores mais nobres daquele respeitável reduto. Jurupari, que de inocente tinha pouco e de barra pesada tinha muito, acabou por se apaixonar pelo famoso Cara de Maçã Verde. Contudo, corria pelas ruas e vielas deste reino encantado uma versão curiosa da história: segundo ela própria anunciava, ninguém jamais se apaixonara por sua pes...