O Caráter de Troia
Desde o início, Cristina sabia: havia em Carlos um desvio de caráter. Era inteligente, sagaz, de fala envolvente — mas também carregava consigo um fio tortuoso, quase invisível, que feria sem pudor os que dele se aproximavam. Ainda assim, Cristina exercitou a empatia. Caminhou ao seu lado, acreditando que até o barro rachado pode, um dia, ser moldado em vaso novo.
Carlos tinha vícios. Um dia furtou um objeto que estava sob a responsabilidade de Cristina. Inventou calúnias graves a respeito dela. E, mesmo assim, ela o relevou. “Setenta vezes sete”, pensava, lembrando das palavras de Cristo.
Mas no tempo certo, a verdade veio à tona. Cristina descobriu que não eram deslizes de momento, mas estratégias: Carlos orquestrava ataques contra ela. Montagens com fotos, manipulação de pessoas, alianças com inimigos declarados.
E o mais doloroso: enquanto Cristina dobrava os joelhos em oração por ele, pedindo a Deus que o guardasse num dos momentos mais delicados da vida dele, Carlos arquitetava, sem hesitar, formas de destruí-la. Enquanto ela clamava pelo bem dele, ele planejava o mal dela.
Cristina lembrou-se, então, de Judas, que beijou o Mestre antes de traí-Lo. Lembrou-se de Ulisses, que com astúcia levou à ruína a cidade de Troia. Carlos sorria e dizia ser amigo, mas guardava nas mãos o cavalo de madeira pronto para abrir suas entranhas e libertar o exército que destruiria a confiança dela.
E veio a pergunta inevitável: até onde vale a pena chamar de amigo alguém que insiste em ser inimigo? Até onde a compaixão deve se confundir com cegueira?
Carlos era, sem dúvida, inteligente. Mas sua inteligência era lâmina, não ferramenta; cortava a todos, sem distinguir. Cristina, por sua vez, compreendeu que misericórdia não precisa ser submissão. Amizade não é penitência.
Assim, decidiu seguir adiante. Guardou a compaixão, mas agora voltada para si mesma. Porque até Jesus lavou os pés de Judas, mas não impediu que ele deixasse a ceia para cumprir o que havia em seu coração.
E Cristina aprendeu, enfim, que às vezes o maior ato de amor é fechar a porta do coração, não por rancor, mas por lucidez.
Comentários
Postar um comentário