Entre Pupunhas e maldições: Um romance que rodou a praça.
Extra! Extra! Soai os tambores e erguei as taças: o Treta Gospel ressuscitou dos mortos como Lázaro em dia de culto!
Poderia, sim, ter sido uma terna e gloriosa história de amor. Poderia... Mas a donzela de língua ferina, boca de sentina e alma envenenada não permitiu. Ó peste maldita! Desde que o mundo é mundo, lá estava ela, destilando sua saliência ungida nos corredores do templo!
Era o alvorecer da década de noventa. Tempos em que os plebeus se reuniam na Praça do Rei Nacional defunto — aquele cuja imagem repousa em bronze mas cujas músicas ainda uivam pelos ventos da memória.
Ali, nas redondezas da praça encantada, o povo girava, rodava, e girava de novo — feito pião de feira. Dali brotaram muitos casais, mais do que nos tempos das grandes enchentes! Os rios do reino, coitados, nem ousavam competir com a mulher que, sentada à beira do chafariz, chorava tanto que inundava a alma dos passantes. De suas lágrimas nasciam oceanos de lamentações que deixavam cicatrizes tão profundas que alcançavam sua constelação familiar inteira.
Aquela que prometia ser uma linda epopeia amorosa rapidamente virou tragédia shakespeariana. Quando a jovem — uma semideusa! — foi preterida por uma boca de esgoto vestida em azul, cuja silhueta parecia ter sido talhada a machado rombudo, o caos se instaurou!
Ela era o Raio de Luar. Ele, o Luar do Amanhecer. Conheceram-se nos salões de um clube histórico de aço e suor, onde cacheiros e damas eternizavam romances sob as luzes tênues da esperança. O sogro, à época, era figura decorativa da corte, uma espécie de relíquia viva. O jovem, ah, o jovem! Era belo, alto — talvez o mais vistoso exemplar da geração "Boa Ideia". Ela, uma moça sonhadora, pronta para viver um amor digno dos bardos.
Ao som de Baby Can Hold You, da trovadora Tracy Chapman — entoada pela rádio de nome tribal —, a donzela chorava sentada à beira do chafariz. Estava fantasiada, vejam só, de King Kong — uma criatura lendária, para poder dançar toda a noite no salão azul e branco. Fugira da casa do pai, esse cavaleiro severo, para encontrar-se com seu amado Luar, que naquela noite estava mais para "Lauara", de tão perdido.
Enquanto ela se desmanchava em lágrimas diante do busto do rei morto, o povo... girava. Girava e rodava! E as buzinas das caravelas anunciavam que era hora de zarpar para o reino vizinho.
Exausta de ser feita de tola, Raio de Luar contratou uns capangas do reino subterrâneo. Ordenou que dessem uma lição ao ingrato bem na frente da taverna que cheirava a Ipuaú e aguardente. Invocou Raimunda das Sete Saias — curandeira das coceiras impossíveis — e pediu que brotasse nele a maldição da coceira de macaco. Tacou-lhe um caroço de pupunha bem na cachola, onde hoje ergue-se um shopping popular de secos e molhados.
No dia do casório — já ele prometido a uma camponesa qualquer — ainda havia esperança em seu peito inflamado. Raio de Luar postou-se diante da casa do Dono Santo da cidade, pronta para raptá-lo e fugir pelos artimijais (que são plantas traiçoeiras nascidas no pântano da cidade) cheios de cheiro de peixe grelhado ao entardecer.
Mas... era tarde demais.
Ele casou.
Anos se passaram. O arrependimento, que não falha, veio. Através de um espelho encantado enviado pelos Jetsons (magos do futuro), ele a encontrou. Pediu perdão. Reconheceu que ela — Raio de Luar — fora o grande amor de sua vida.
E nunca mais se viram.
Por : Silvana Valente.

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