Arte : Fabiano Aguiar.
CRÔNICA DA FESTA .
Texto: Silvana Valente.
Queridos leitores, é chegada a hora de partir.
Volto para a minha vida “normal” — ou o que se pode chamar de normalidade depois de viver treze dias com o coração em festa e os pés fincados em memória.
Sempre tive as melhores recordações das festas de Santo Antônio.
Na infância, meus olhos brilhavam diante daquelas máquinas de sorvete dos anos 80 e 90 — o de morango era o preferido. Ainda vou comprar uma daquelas, só pra ver se o gosto da infância ainda mora na primeira lambida.
Tinha também o aviãozinho, aquele brinquedo que meu pai nunca achava perigoso. E as noites terminavam em jantares no Cliper de Santo Antônio.
Naquela época, o Círio era noturno — e podia sair do São Benedito, do São Sebastião ou do Perpétuo Socorro.
Eu não tinha muita noção de tempo, e talvez por isso o tempo fosse mais leve.
Hoje, trago recordações misturadas com a ausência — de tantos anos em que não consegui viver os arraiais como se deve.
Quem mora longe e tem a vida amarrada em ofício nem sempre pode burlar as agendas e se entregar aos 13 dias do nosso padroeiro com a devoção que a alma pede.
Mas viver Alenquer nesse tempo é viver outro tempo.
O Círio? Comprido. Calor demais pra andar tanto.
A gente entende que Alenquer cresceu e que é justo valorizar cada comunidade.
Mas a verdade é que o aquecimento global tem cobrado caro até da fé.
Mesmo assim, foi lindo.
As ruas tinham buracos — uns de asfalto, outros de gente.
Uns se remendam com obra. Outros, só com presença.
A Caminhada da Fé foi a que mais desejei ir.
Infelizmente, a saúde não permitiu. Mas o evento, ah... emocionante como sempre. Merece aplausos.
A Cavalgada? Espetacular. Gente demais!
Mas confesso: me incomoda ver pessoas consumindo álcool e pulando em cima dos animais. Festa sim, abuso não.
E sobre os que burlam o percurso: ou se vai até o fim no mesmo sentido ou melhor nem ir, porque atrapalha.
Aliás, ouvi dizer que temos um herói municipal: O Toco!
Cabra macho, mostrou que Alenquer tem dono. Alenquer é dos Alenquerenses. E ponto final!
O tradicional almoço da Maria Antônia, oferecido pela sua família em agradecimento à graça recebida — foi simplesmente sensacional. Um momento de harmonia e fé.
E como não falar de Zé Matuto e Matutando?
Mais vivos do que nunca!
Até o Boto cor-de-rosa apareceu, rapidinho, só pra aquecer os corações e limpar nossos olhos.
Dizem que ele surge quando a alegria já passou do ponto e a emoção transborda — e foi bem assim.
Tão lindo, tão admirável e encantador, que quem não tem autocontrole pode acabar se perdendo nos seus feitiços.
Porque o Boto não é só lenda — é aviso.
Ele dança com as moças, encanta os descuidados e, num piscar de olhos, some nas águas.
Veio, sorriu com seus olhos de mistério… e voltou pro fundo do encanto, de onde ninguém sai ileso.
Tivemos reencontros e encontros.
Comidas com sabor da nossa terra.
Músicas que mexem com memórias escondidas.
Abraços, afagos… e a tradicional fofoca (que nunca para, né?).
Eu vivi os 13 dias. Vivi mesmo.
Com fé, com amor, com tradição.
Andei de bate-bate, dancei, pulei, gritei, briguei, ri.
Tô cheia de ideias. Tomei nosso tacacá.
E agora? Agora dá vontade de voltar no tempo.
Mas o tempo, esse danado, não volta.
Passa com passos de procissão:
lento quando se espera, ligeiro quando se ama.
Leva o perfume da terra molhada,
o som do riso solto,
o gosto do tacacá quente.
Mas deixa na gente a certeza de que viver vale a pena —
principalmente quando se vive com o coração pulsando
no ritmo das lembranças.
O tempo não volta, é verdade.
Mas quem viveu de verdade,
não precisa que ele volte.
Basta fechar os olhos e sentir —
que ainda está tudo ali.

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