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O Torneio da Barata Cascuda



Ei, escuta aqui: Pão bolorento, mas pra que tanto tormento? Não te agonies, pobre criatura das trevas; engolir teu próprio veneno sempre te fez mais forte. Afinal, é de bolô que te alimentas.

Não ligo para que horas são, só quero ouvir o bem-te-vi cantar na minha janela, anunciando a tua perdição...

No torneio, o que se via era a Barata Cascuda, forçando simpatia.

Mas e o rei ogro, onde estava? Perai, a hora dele vai chegar.

Respira.O Treta Gospel de hoje já vai começar.

O Torneio da Barata Cascuda

Era uma vez, num reino tão, tão distante que até o GPS desistia de atualizar, um evento anual que causava frisson entre os súditos: o Torneio da Barata Cascuda. Mas não se engane, pois aqui não havia justas entre cavaleiros nem bailes com sapatinhos de cristal. O grande destaque era ela: a barata. Não uma barata qualquer, mas A Barata Cascuda.

Toda emperiquitada, de antenas bem penteadas e casco duro feito muralha medieval, a Cascuda fazia questão de se exibir. E falava, viu? Falava mais do que beata na porta da igreja. Jogava charme pra um, destilava veneno pra outro, sempre com aquele ar de quem nasceu pra reinar, mas esqueceu de combinar com o povo.

As provas do torneio eram duras: resistência a chineladas, corrida sobre pratos de sopa e, a mais temida de todas, o Teste do Nojo – onde os plebeus deveriam encarar a barata por cinco minutos sem fazer careta. Poucos resistiam. Mas se havia algo em que a Cascuda era imbatível, era na arte da fofoca. Sua língua afiada espalhava boatos de quem ela queria tirar do caminho.

A vítima da vez? Justamente quem um dia lhe emprestou lindos sapatinhos, achando que ajudava uma amiga. Ingênua! Mal sabia que a Cascuda não devolvia favores, só destilava veneno.

— Ai, mas quem diria, né? Empresta os sapatinhos, mas só pra mostrar que tem pé mais bonito que os outros... — sussurrava, com cara de quem só queria o bem do reino.

A barata fingia educação, sorria doce como mel, mas aquele mel era puro veneno de cascavel. Se vestia de personagem o tempo todo, fazia pose, interpretava, fingia ser amiga, leal, confiável... Mas tudo por um mísero tostão.

Enquanto a Cascuda armava sua teia, o rei ogro vagava pelo castelo. E vagar aqui era eufemismo, porque o que ele gostava mesmo era de apalpar nádegas alheias sempre que via seu reflexo no espelho. Era um mistério: ao invés de se encantar com a própria feiúra, o rei usava o momento para incomodar as moças do castelo. Mas o destino tem senso de humor.

No meio do torneio, a Barata Cascuda, cansada de tanta desordem (e sempre de olho em ser o centro das atenções), resolveu que alguém precisava botar ordem no reino. E como barata não tem mão, usou o que tinha: a língua.

— Majestade! — gritou, equilibrando um torrão de açúcar roubado da mesa do chá real. — Já passou da hora de parar de apalpar e começar a apanhar!

A plateia ficou em silêncio. O rei enrubesceu, talvez de raiva, talvez de vergonha – se é que tinha. Mas na hora de retrucar, tropeçou num servo desajeitado que carregava um caldeirão de sopa fervente. No desespero, agarrou-se no que não devia (de novo) e foi direto para o tacho.

— Parece que o castigo chegou na forma de um caldo bem quente! — gritou a barata, debochada, enquanto o reino explodia em gargalhadas.

Dizem que, mesmo depois desse dia, o rei ainda não aprendeu a lição. Ou sequer  passou a pensar duas vezes antes de esbarrar onde não devia. Quanto à Barata Cascuda, seguiu com sua pose de estrela, sua fofoca afiada e sua coroa invisível. Porque no fim das contas, enquanto houver palco, plateia e um reino bobo o bastante para acreditar, sempre haverá uma cascuda pronta para encenar.

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