Naquele rincão onde o tempo parece cochilar à sombra das mangueiras e os causos ganham asas ao cair da tarde, ecoou mais um capítulo do já famoso Treta Gospel, anunciado em tom de arauto:
“Extra, extra!”, já iam dizendo, “qualquer semelhança com a realidade é mera saliência da minha parte"
Era sábado de aleluia, dia em que, segundo os antigos, o mundo dos vivos e dos que já partiram se roçam como véus ao vento. Mas naquele ano,não houve Judas pendurado. Em seu lugar, surgiu ela: a lendária Jurupari da Coaracy.
Dizem que, enquanto as almas seguiam seu cortejo silencioso rumo à Igreja de São Benedito, em busca de preces e redenção, a tal criatura resolveu antecipar a própria liturgia. Apareceu primeiro, audaciosa, quase solene, quase profana, subindo sem cerimônia sobre um caixão ainda cercado de murmúrios.
E não veio de qualquer jeito, não.
Veio com sua sandália enfeitada de paticholi ainda da época que nem o Zé Bonitinho existia, reluzente como se tivesse atravessado séculos de realeza e pecado. Pisava firme, como quem carrega não só o corpo, mas toda uma história mal contada. Rezava alto, num latim improvisado, misturado com sotaque de beira de rio, que mais confundia do que salvava.
Foi quando o inesperado aconteceu.
No meio da encenação celestial, o saco sob o caixão, já cansado de segurar tanto peso e tanta audácia, rasgou com beira. Um estalo seco, quase um juízo final em miniatura.O saco tava cheio de pecado. O povo se entreolhou. Uns fizeram o sinal da cruz, outros seguraram o riso, e alguns juraram nunca mais voltar ali em sábado santo.
A Jurupari da Coaracy,porém, firme como muralha medieval, seguiu. Sacudiu a poeira, ajeitou suas chinelas de paticholi e continuou sua reza performática, como se nada tivesse acontecido.
E foi aí que começaram as perguntas.
“Mas onde mesmo ela mora?” “De onde veio essa criatura?” “Quem é, de cabo a rabo?”
Silêncio.Ningué lembrava de nenhuma légua da Icoaracy.
Ninguém sabia. Ninguém lembrava. Era como se tivesse brotado das lendas, feito assombração com CPF duvidoso.
No fim, cansada de tanto espetáculo e pouca devoção alheia, a Jurupari desceu do palco improvisado e tentou ainda um último ato: puxou conversa, puxou assunto, puxou até um certo saco, buscando aplauso, reconhecimento, quem sabe um lugar entre os vivos.
Mas não teve jeito.
O povo dispersou.
Um foi cuidar da vida, outro foi comentar em voz baixa, outro jurou que nem viu nada. E assim, entre cochichos e risos contidos, ficou decretado o destino da criatura naquela noite santa:
Mesmo puxando o saco, ninguém deu confiança pra pobre Jurupari da coaracy .

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