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A Cura Gay


 

“A Cura Gay” — Crônicas do Reino Tão, Tão Distante.

Enio: casado, com filhos, bem-sucedido, cidadão exemplar, pagador de impostos, desses que devolvem até troco errado. Aparentemente, um homem do bem.

Sérgerte:gay assumido, alegre, cheio de prosas e trejeitos, capaz de deixar qualquer novela mexicana com inveja. (A essa altura você já sabe perfeitamente onde esse enredo vai parar, né?)

Era uma noite de outono no reino tão, tão distante. Não há registros oficiais de como a prosa começou, nem o escriba da vila, fofoqueiro de plantão, sabe, mas a cena lendária começa a ser descrita agora.

Apertem os cintos e segurem a peruca!

Muita gente vai se reconhecer, mas fiquem tranquilos: nem sob tortura a identidade de Batman e Robin será revelada.

Pois bem: Enio e Sérgete marcam um encontro num lugarejo afastado, onde só tem mato, grilos e segredos. Sérgete prometia uma noite tórrida. Enio estava emocionado, quase recitando poesia. Sérgete? Queria mesmo era curtição e talvez um caos controlado.

Chegando lá, Sérgete veste sua cueca de gogoboy com a troba de elefante na frente (uniforme oficial de aventuras proibidas) e coloca pra tocar… bom, não era “Eu Vou Tomar um Tacacá”, mas qualquer música da Joelma servia como trilha sonora eletrizante.

As éguas e os cavalos, testemunhas oculares, confirmam: a noite foi quente. Muito quente.

Após o ato, Enio resolve abrir o coração como se estivesse num divã:

Confessa que sonha ser livre, viver seu “eu” verdadeiro, mas que os filhos são pequenos, a responsabilidade social pesa, e a corte exige aparências. O pacote completo de culpa, medo e reputação medieval.

Sérgete ouve tudo, reflexivo. Pra ele o processo foi mais simples, mas entendia o drama shakespeariano de Enio.

Uma semana passa. Sérgete está tranquilo quando o telefone toca.

Ele olha o bina: é a esposa de Enio.

O mundo para. O oxigênio some. Até Beyoncé ficaria sem voz.

Ele atende.

Do outro lado, a voz firme, trêmula e decidida:

A esposa rebate como quem já tinha ensaiado no espelho, com aquele seu português do brejo, cheio de caboquês.

 Olhe, sumano,tu ama ele? eu amo ele e vou lutar pelo meu casamento. Tu pega o beco,Eu vou fazer a cura gay. Aqui ele já está curado, resolvido, e tu não faz parte disso.

Sérgete lembra das viagens, presentes e móveis recebidos de Enio, respira fundo e responde:

— Não. Foi apenas sexo.

Dias depois, Enio aparece. Conta que a esposa desconfiou, esperou ele ir ao banheiro, desbloqueou o celular e encontrou o portal do apocalipse.

Eles combinam de não se ver mais, para não machucar a mulher.

Se houve reencontro após isso? Não há relatos e se houve, ninguém contou (ou ninguém teve coragem).

Enio retorna ao castelo, à esposa, aos filhos. Vive como se nada tivesse acontecido.

E sua verdadeira identidade?

Essa ele escondeu tão fundo que nem a “cura gay” da esposa conseguiu alcançar.

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