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JURUPARY DA LUANDA

 


Crônica de um Reino Antigo: A Jurupari da Luanda


Para vós, amantes das eternas tretas gospel, é chegada a hora de registrar nos anais deste reino uma história que, até hoje, provoca gargalhadas entre os cascas de bala da não tão nova geração na ilharga da mulher Xafariz. 

Pela honra e glória da respeitável família alenquerense, apresento-vos uma figura que já percorreu mais becos e comentários do que muito trovador de feira: a célebre Jurupari da Luanda.

Era, dizem os cronistas populares, uma peste cheia de lari-lari. No seu próprio imaginário, mantinha estreita amizade com o alto clero da Coaracy Nunes, como se fosse frequentadora assídua dos corredores mais nobres daquele respeitável reduto.

Jurupari, que de inocente tinha pouco e de barra pesada tinha muito, acabou por se apaixonar pelo famoso Cara de Maçã Verde. Contudo, corria pelas ruas e vielas deste reino encantado uma versão curiosa da história: segundo ela própria anunciava, ninguém jamais se apaixonara por sua pessoa. Um drama digno das cantigas antigas.

Mas bastava alguém desenvernar uma história mal contada ou ir para o reino dos pés juntos que a Jurupari imediatamente se transformava na maior carpideira da paróquias de Santo Antônio, São Benedito, São Sebastião e até do Marambiré. Pregava versões, lixava verdades, martelava narrativas e saía distribuindo remendos nas histórias como se fosse mestra de obras da moral alheia.

O pequeno detalhe que sempre intrigava os moradores do reino era outro: a dita cuja sequer era do Pé da Serra ou da Coaracy Nunes.Ainda assim, caminhava pelas ruas com ares de quem sonhava habitar os salões da mais distinta sociedade.

E assim segue registrada esta crônica popular: a saga da Jurupari da Luanda, personagem que entre lari-laris, histórias remendadas e sonhos de grandeza acabou virando mais motivo de riso do que de reverência neste velho reino amazônico.

Pois, nos reinos de ontem e nas cidades de hoje, a mentira até pode desfilar como dama da sociedade, mas a verdade, paciente como monge copista, sempre acaba registrando a história do jeito que ela realmente foi.

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