A Cidade Que Me Esperava
A dor humilha.
Há mulheres que tentam dar conta de tudo, mesmo quando estão despedaçadas por dentro.
Entre sentir demais e se anestesiar para sobreviver, eu aprendi que amadurecer é encontrar a linha tênue entre se permitir e se proteger.
É atravessar a dor até o renascimento, aprendendo a ser inteira e a amar a si antes de amar o mundo.
Foi nesse estado de alma que sonhei que voltava para casa.
Não a casa onde moro, mas aquela onde mora tudo o que sou: o cheiro do rio, as lembranças da infância, o silêncio das coisas que nunca se dizem.
No sonho, peguei um barco.
Era como se o tempo remasse comigo, empurrando as águas para que eu retornasse às raízes.
Mas o destino,sempre cheio de caprichos, me deixou em outra cidade.
Não era a minha, mas havia nela algo de familiar: ruas em declive, casas que conversavam pelas janelas abertas, uma igreja abençoando os passos de quem passava.
Tudo ali era antigo, mas ainda vivo, como as saudades que se recusam a morrer.
Foi então que comecei a te procurar.
Você, que virou poesia no peito.
Havíamos combinado de nos encontrar ali.
Mas o tempo, sempre ele, se intrometeu entre nós.
E eu, sem mapa e sem sinal, vagava por ruas que pareciam me conhecer melhor do que você.
Vi pessoas que já partiram.
Sorriram para mim como se nunca tivessem ido.
E por um instante, o mundo pareceu justo, o tempo uma brincadeira, e a morte apenas uma invenção passageira.
Subi e desci ladeiras.
Entrei numa loja que vendia lembranças.
Sentei num banco de praça, onde um ancião me disse apenas:
“Espere.”
E eu esperei.
No fim da rua, encontrei um tribunal.
Talvez você nem saiba, mas tem defendido meu coração em silêncio.
Sonhei que a sentença seria leve, bonita.
Ali também vi os que já não estão mais.
Minha mãe vinha sorrindo, e com uma voz alegre me dizia:
“Escreve.”
Acordei antes de te encontrar.
Mas algo em mim sussurrava que você estava perto.
Talvez o amor more mesmo nessas cidades inesperadas ...
lugares onde não pensamos parar,
mas que, de algum modo, sempre souberam que chegaríamos.
E despertei com medo.
Medo da vida.
Mas também com a estranha certeza de que, em algum lugar, ela ainda me espera.
Porque essa cidade que me recebeu era feita de memórias dos que já se foram, mas continuavam sorrindo para mim como se nunca tivessem partido.
As ruas sabiam meu nome, as ladeiras guardavam minhas quedas, e as janelas abertas me lembravam de tudo o que um dia deixei para trás.
E eu, essa menina teimosa que insiste em se maltratar, seguia caminhando entre a saudade e o silêncio, como quem aprende que até a dor pode ser uma forma de voltar para casa.

Que história linda de se ler, viajar e vivenciar. Um riqueza cronológica no espaço. Passei a ser admirador deste blog pela nostalgia que passamos a vivenciar a cada leitura. Parabéns.
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