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A Dama da Vergonha e o Cavaleiro do Desonro


 

 Respeitável público tenho a honra de avisar que : " Alô, alô  o Treta Gospel voltou, o Treta Gospel Voltou ..."
Queridos e gentis leitores,( é, eu "emprestei" de Bridgerton) estavam com saudades dessa aspirante a escritora com ideias borbulhando nas madrugadas intermináveis  e que gosta das vestes cheias de escárnio e engenhosidade? Então, eis-me aqui, para atiçar os seus pensamentos pravos.

Era uma vez, no reino tão, tão, distante....

A Dama da Vergonha e o Cavaleiro do Desonro

No vasto Reino de Ardentia, onde os nobres se vestiam de ouro e os plebeus de paciência, havia uma figura cuja reputação cheirava pior que queijo esquecido ao sol. Chamavam-na de Lady Genoveva, mas pelas vielas e tavernas, era conhecida como "A Boca Maldita de Ardentia".

Genoveva era uma mulher de traços finos… ou melhor, teria sido, não fosse pelo nariz avantajado, que parecia apontar para os problemas alheios antes mesmo dela abrir a boca. E que boca! Sua voz estridente cortava o ar como lâmina cega, irritando até os cavalos que puxavam as carruagens. Mas o pior não era isso: Genoveva tinha o hábito insuportável de tocar nas pessoas — pegava nos braços, nos ombros, até nos rostos! A intimidade era unilateral, pois ninguém queria sentir suas mãos ossudas passeando por suas vestes de veludo.

Seu maior sonho? Ser respeitada na sociedade do reino, participar dos bailes, sentar-se ao lado das damas de prestígio, talvez até ser convidada para bordar com a Rainha! Mas em todo evento que aparecia, a nobreza torcia o nariz, e até os plebeus davam um jeito de mudar de lado da rua ao vê-la.

— Lá vem Genoveva! — cochichavam.
— Escondam os cálices e os segredos! — alertavam outros.

Mas o que ninguém falava em voz alta (e todos sabiam) era o maior escândalo: Lady Genoveva, nos calados da noite, fazia chamadas de espelho encantado completamente nua para um velho ancião do reino! As criadas cochichavam nos corredores, os bardos compunham versos picantes (embora discretos, para não irem parar na masmorra), e os senhores do conselho real trocavam olhares constrangidos sempre que seu nome surgia.

Mas se Genoveva era um desastre social, seu marido, o Lorde Alberico, era uma catástrofe ambulante. De feições grosseiras, com traços que lembravam os antigos guerreiros da floresta, ele já fora cavaleiro da guarda real. Mas sua tendência a puxar espada para resolver qualquer questão — desde disputas de taberna até discussões sobre o preço do pão — acabou lhe rendendo uma expulsão desonrosa.

Sem prestígio e sem serventia na corte, Alberico abriu uma taberna na parte esquecida da cidade. Diziam que só ratos e bêbados sem opção apareciam por lá, pois sua arrogância era tão forte quanto o cheiro de cerveja estragada. E se havia algo que Alberico detestava mais do que a falência iminente, era os filhos de Genoveva.

— Não são meus, então não me interessam! — dizia ele, enquanto negava até migalhas de pão às crianças.

Genoveva, entre uma intriga e outra, vivia enredada em uma realidade paralela, convencida de que ninguém sabia dos gritos abafados por trás das portas de carvalho, das marcas que sumiam sob vestidos de veludo e das lágrimas que ela jurava serem de alegria.

Enquanto isso, os boatos corriam soltos como cavalos selvagens.

— Ouvi dizer que Alberico anda de bolsos vazios e punhos cheios!
— E dizem que Genoveva ainda acha que será convidada para o banquete real!

E assim seguia a vida em Ardentia. Enquanto Lady Genoveva tentava, sem sucesso, se enfiar na alta sociedade, o reino a via pelo que realmente era: uma tragédia embalada em perfume barato, casada com um desastre em armadura enferrujada.

O tempo passava, os nobres dançavam, os bardos cantavam, e Ardentia seguia em frente. Apenas Genoveva e Alberico permaneciam presos em sua farsa, sem perceber que, para o resto do reino, já eram apenas um espetáculo de segunda categoria.

Autora: Silvana Valente.

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